Friday, February 24, 2006

CHUCK NORRIS IN FABICO

É o que dá não ter o que fazer. Eu e a Carol, no MSN, falamos tanta bobagem que acabamos concebendo essa pequena maravilha da cultura pop fabicana - Chuck Norris in Fabico. Não poderíamos deixar de compartilhar com vocês, claro. No blog da Carol são 50, aqui no Era Uma Vez Em Porto Alegre são 48 - quem descobrir os dois que estão faltando aqui ganha um roundhouse kick! Ahn, ahn, ahn?

Lá vai:

01. Rosa Nívea conheceu Chuck Norris. Sua mente não resistiu à experiência.

02. Chuck Norris passou na frente da Fabico e disse:'reformem essa merda'. O reitor não ousou
discutir.

03. Chuck Norris deu um roundhouse kick no terceiro andar. Assim começou a reforma do estúdio de TV.

04. O novo diretor da Fabico tinha 2m de altura e uma vasta cabeleira. Até ver Chuck Norris dar um rounhouse kick no terceiro andar.

05. Chuck Norris não teme ninguém. Mas evita conversar com Rosa Nívea.

06. Chuck Norris é a única coisa que o Enrico não considera um absurdo.

07. Chuck Norris não teve aula com o Carvalho. Quando o professor começou a falar, ele se irritou e deu um leve roundhouse kick na cara dele, como aviso. Durante um semestre o Carvalho falou fininho, e ainda hoje, seqüelas no cérebro o fazem dormir nas apresentações dos alunos.

08. Chuck Norris fez um curta para linguagem de vídeo. Não há sobreviventes.

09. Chuck Norris ensinou semiologia para o Milman. E ele não aprendeu muito bem!

10. Chuck Norris não faz edição. Ele tortura a ilha até ela montar o vídeo para ele.

11. Chuck Norris ataca o elevador. O elevador não é bobo para atacar Chuck Norris.

12. Um dia, Chuck Norris saiu do elevador dizendo: "o oitavo andar é muito chato". Nunca mais alguém conseguiu ir até lá.

13. Chuck Norris dançou numa chinelagem. Não há sobreviventes.

14. Todos os fabicanos sofrem trote. O trote sofre Chuck Norris.

15. Quando Chuck Norris não gostava de uma aula, ninguém hesitava em tirá-la do currículo.

16. Chuck Norris teve a maior arrecadação de pedágio da história dos trotes. Ele parava os carros e se apresentava como Chuck Norris. O valor arrecadado foi maior que o lucro anunciado pelo Banco do Brasil daquele ano.

17. Chuck Norris, de vez em quando, matava algumas aulas. Essa é a história da mudança de currículo da fabico.

18. Chuck Norris doou todos os cadáveres que o ICBS tem hoje. Todos.

19. Existem quatro valores no RU: para alunos, visitantes, alunos carentes e Chuck Norris. Geralmente ele é bem pago para comer.

20. Chuck Norris não usa carteira de ônibus. Nenhum cobrador ousa cobrar passagem dele.

21. Originalmente, a ufrgs não era gratuita. Até Chuck Norris chegar.

22. Chuck Norris não precisou completar a faculdade para se formar. Logo após o vestibular ele recebeu os diplomas em jornalismo, economia, direito, medicina e veterinária.

23. Uma vez Chuck Norris chegou atrasado numa aula do Rudiger. Quem saiu da sala foi o professor.

24. Roundhouse kick era uma cadeira da faculdade de Educação Física. Ela foi extinta depois que Chuck Norris deu uma demonstração e, além de matar toda a turma, jogou a ESEF pra bem longe do campus da saúde.

25. Chuck Norris foi jubilado. 15 vezes. Ninguém ousou avisá-lo.

26. Chuck Norris não paga multa para a biblioteca. A biblioteca paga Chuck Norris para não ser destruída com um roundhouse kick.

27. No baralho espanhol de Chuck Norris, todas as cartas são ás de espadas.

28. Chuck Norris uma vez viu uma turma de arquivologia. Não há sobreviventes.

29. Quer fazer o Milman parar de fumar? Diga "olha que o Chuck Norris vai vir te pegar!"

30. Chuck Norris não tem carteirinha da UFRGS. Quando o cara do centro de identificação disse q ia BATER a foto dele, Chuck Norris se irritou e deu um roundhouse kick no fotógrafo. Ninguém bate nada em Chuck Norris. Ninguém.

31.Mas tudo bem, porque se não deixarem ele entrar em algum prédio, Chuck Norris simplesmente ameaça dar um roundhouse kick e está tudo resolvido.

32. Chuck Norris considera a Rosa Nívea a melhor professora da Fabico. Não é saudável discordar.

33. Chuck Norris é o único que realmente sabe para que serve um relações públicas.

34. Uma vez, Chuck Norris utilizou o Lico. Os computadores nunca mais se recuperaram do choque

35. Chuck Norris não tem intencionalidade. Ele age. E mata.

36. Intencionalidade pode ser também com "s". Se Chuck Norris quiser.

37. Uma vez, disseram a Chuck Norris que haviam homúnculos no seu cérebro. Hoje, nenhum deles ainda vive.

38. Semestre passado, Chuck Norris pegou o Milman fumando. Ele teve que pedir licença médica.

39. Chuck Norris não joga sinuca. Ele olha para as bolas, e elas caem na caçapa de medo. Por isso Chuck Norris sempre ganha dando capote no adversário. Sempre.

40. Chuck Norris nunca passou debaixo da mesa de sinuca. A mesa de sinucapassa por baixo de Chuck Norris.

41. A porta do dacom está sempre aberta para Chuck Norris. Sempre.

42. Na verdade, o único que comeu a Luana foi Chuck Norris. Ela não sobreviveu.

43. O pátio de inverno era antes o auditório da fabico. Até Chuck Norris dar um roundhouse kick no teto, num dia de calor.

44. Chuck Norris ganhou uma nota de 50 reais num pedágio. Ficou tão revoltado por receber tão pouco dinheiro que, para evitar o roundhouse kick, o homem entregou-lhe as chaves de seu carro.

45. Chuck Norris não teve que escrever a redação do vestibular. Bastou escrever "Chuck Norris" no título.

46. A cerveja acaba em todas as festas à fantasia 2 segundos depois da chegada de Chuck Norris.

47. Chuck Norris não precisou defender a sua monografia. A banca fugiu de medo ao ler o título: "Uma análise prática das diferentes formas de se aplicar um roundhouse kick. De Chuck Norris".

48. Uma vez, um guardador de carros pediu uma gorjeta a Chuck Norris. Desde então, todas as vagas de estacionamento próximas de qualquer unidade da UFRGS pertencem a Chuck Norris - e os guardadores pedem gorjetas para poderem subornar Chuck Norris e escaparem do roundhouse kick.

Saturday, February 11, 2006

BENTO GONÇALVES, 06/02 A 08/02 – EM 10 CENAS

CENA 01: 06/02. Oito da manhã. Olho para minha mala, jogada num canto da entrada da casa da Luci e da Leti. Ecoam na minha mente as palavras da Luci: “tu sabe que a gente vai passar lá só uns dias, né?”. O sorriso surge naturalmente no meu rosto. Na poltrona, o Pinky está fingindo que acordou. No banheiro, a Luci está terminando de se arrumar. Eu pego a minha mala, e ela parece mais pesada do que na noite anterior. Penso que o sono antes de uma viagem é o tipo de coisa que não se deveria negligenciar. Um facho de luz entra pela cortina semicerrada da janela da sala e forma um pequeno arco-íris contra a parede branca. Espanto o pensamento e coloco a alça da mala de viagem sobre o ombro.

CENA 02: 06/02. Pouco depois das onze da manhã. No ônibus, viagem de ida. Olho ao redor, depois de ficar cerca de quinze minutos ouvindo música de olhos fechados, e percebo que acabamos de passar o barril de vinho estilizado que faz as vezes de entrada de Bento Gonçalves. Cutuco a Luci, que está dormindo no assento ao lado, e quando ela acorda digo: “vê se essa paisagem te diz alguma coisa”. Ela abre os olhos devagar e diz: “nossa, já estamos em Bento!”. Eu rio baixinho.

CENA 03: 06/02. Final da tarde. Visitando a estação da Maria Fumaça. Entro em um certo estágio de frenesi: começo a andar de lá para cá, pensando em enquadramentos e movimentos de câmera. A Carol e a Luci, a seu modo, fazem algo parecido, ou talvez não. Depois, voltamos a pé até o carro, andando entre os trilhos do trem. O som do cascalho pisado me lembra a casa da minha avó.

CENA 04:
06/02. Perto das dez horas da noite. Jantar com o dono da empresa que coordena o funcionamento da Maria Fumaça e da viação Santo Antonio. Ele conta boa parte da história de sua vida de trabalho duro, e discutimos a liberação da estação de trem e da própria Maria Fumaça para as gravações do nosso curta. Positivo, apesar de pequenos poréns. Estamos se preparando para levantar da mesa, e eu, sem qualquer motivo aparente, penso em como é estranho fazer uma idéia virar realidade. O papagaio da família me observa, com expressão grave.

CENA 05: 07/02. Por volta das onze da manhã. Pedreira pertencente à subprefeitura de Tuiuti (escreve assim mesmo?). Belíssimo lugar, com uma visão legal da serra e vários lugares legais para gravar. Subimos até o topo da pedreira, para ver tudo de cima, e eu acabo enterrando o pé na lama durante a descida, inutilizando um par de meias no processo. Estou animado, empolgado, e penso em alguns amigos meus que não poderão participar do projeto e que adorariam estar ali naquele momento. Depois, me embrenho numa pequena trilha, para ver se existe algo interessante no fim da mesma. Encontro a sucata de um carro branco, abandonado ali sabe Deus a quanto tempo, e várias borboletas amarelas estão pousadas dentro dele. Uma delas sai voando. Eu fico olhando aquilo um tempo e depois vou embora, deixando as coisas do jeito que eu acho que devem ser e pensando que, da próxima vez, não esqueço o boné em casa.

CENA 06: 07/02. Meio da tarde. Vinícola Valduga, lá no Vale dos Vinhedos. Fazendo a visitação – comendo uva da parreira, degustando vinho, subindo e descendo escadas, essas coisas. Depois, as gurias me diriam que o guia parecia o Johnny Depp; não concordo, mas enfim, mulheres não fazem o menor sentido mesmo. Descemos até a adega, onde os vinhos de boa safra ficam estocados, e percebo algumas paredes muradas que, pela distribuição, parecem formar pequenos cubículos para os quais não há acesso. Lembro do “Barril de Amontillado” do Poe e preciso respirar fundo para evitar uma gargalhada.

CENA 07: 07/02. Final da tarde. O gato da família, até então nem um pouco simpático à minha presença, resolve repentinamente deitar no meu colo. Surpreso, não tenho nenhuma reação a não ser ficar acariciando, submisso, a região entre a orelha esquerda e a nuca do bicho. Fica claro, naquele momento, o porquê de eu preferir os cachorros.

CENA 08: 07/02. Perto das nove e meia do noite. Eu e a Luci, sentados no chão da sacada da casa dos pais dela, conversando sobre Bon Jovi. A vista é espetacular. A conversa é simples, inconseqüente e agradável. Possivelmente o momento mais agradável da viagem: por mim, eu não sairia dali nunca mais. Poucos segundos depois, os pais da Luci chegam e ela vai abrir a porta da garagem. A impressão que eu tenho é de ouvir um “crack”, como se um galho seco se quebrasse no ar. Não consigo evitar um suspiro.

CENA 09: 08/02. Passeio de Maria Fumaça, cortesia do dono da empresa. Viagem divertidíssima. Alguns pontos de habitação precária no meio do caminho do trem servem como contraponto ao clima saudoso-nostálgico da viagem. Em uma das casinhas para lá de humildes, um garotinho sem camisa acena sorridente para o trem, com a expressão tranqüila e serena de quem está pouco se lixando se será visto ou não. Eu aceno de volta, sorrindo muito mais por dentro do que por fora.

CENA 10: 08/02. Noite. Carol cochilando no assento da janela do ônibus. Eu, como de hábito, não consigo dormir nessas situações. No fone de ouvido, Praying Mantis; no céu, uma lua quase cheia semi-encoberta pela névoa. Nas placas, os sinais de que estamos entrando em Porto Alegre. De volta ao lar. A sensação é boa e ruim ao mesmo tempo. Penso na minha cama, na pilha de emails que me aguarda, no meu cachorro. O sentimento melhora, e consigo sorrir. Pois é. De volta ao lar.

Monday, January 30, 2006

DA SÉRIE "O BLOG É MEU, EU POSTO O QUE EU QUISER"

Pois então. Remexendo nos meus arquivos, encontrei essa pequena pérola produzida na primeira metade de 2003, para a cadeira de Comunicação em Língua Portuguesa II. Trata-se, na verdade, de um conto a quatro mãos, dividido com o inigualável Prof. Paulo Seben. Explico: uma das tarefas propostas pelo digníssimo mestre foi a produção de um texto ficcional, a partir do começo fornecido por outra pessoa - tipo, o aluno x iniciava uma história, e o aluno y concluía a mesma. Como faltou um aluno, o Prof. resolveu ele mesmo entrar na jogada - e eu, afortunadamente, recebi por sorteio a tarefa de completar o texto do Seben. Trata-se de um pequeno épico político - e, ao relê-lo, me surpreendi de ver como, mesmo depois de quase 3 anos, ele encaixa muito bem no panorama atual de nossa nação. Além do que, nesses dias de expectativa para saber se conseguirei cursar Seminário de Literatura ou não, reviver minha breve parceria com o Prof. parece bastante adequado. Por isso, ei-lo, para o deleite de meus poucos e não-tão fiéis leitores. A parte em itálico é de Mr. Seben, e a seqüência é obra do justiceiro aqui. Feito? Então tá:

ATEÍSMO


- Se me chamam de trotskista
puxo de banda o facão
que mentiroso eu degolo;
trosko vai pro paredão.

- Pro paredão não vai trosko,
seu esbirro estalinista;
vai burguês, padre e burókrat
e se bobear, reformista.

- Reformista é a tua tendência,
contrária à natureza;
aranha briga ‘co aranha
e o resto é chuchu- beleza.

- Além de chuichu-beleza,
nós somos revolucionários!
Militante não tem sexo;
tu que é reacionário.

Os dois barbudinhos estavam há um bom tempo no duelo de trovas. Limberto já se considerava um veterano do movimento estudantil; dois meses depois do trote dos bixos, participara da primeira panfletagem do PC do B; uma semana depois, pichara muros em apoio à chapa de situação do Sindicato dos Trabalhadores Eventuais; assíduo ás reuniões de sua célula, jamais deixara de realizar uma leitura, e seus textos espelhavam rigorosamente a doutrina aprendida.
O trotskista era chamado de Paulista por motivos óbvios. Conhecera Limberto no trote, e o gosto comum por Steinheger os tinha tornado amigos. A política, no entanto, os dividira. Paulista, músico underground em sua cidade natal, Campinas, não simpatizara com o que considerara autoritarismo da militância pecedobista, além de já ser filiado ao PT em São Paulo.
Era a vez de Limberto prosseguir a disputa, mas seu olhar pastoso encontrou o umbigo piercingzado da moreninha que entrava no ambiente esfumaçado do Dacom.
Embora a seiva grossa do comunismo corresse abundante em suas veias, a verdade é que ele não era de todo insensível aos reclamos da carne; e, posto isso, julgou de bom tom dar cabo da contenda, de modo que pudesse envolver-se o mais rápido possível em um outro tipo de disputa. Entoou, de modo taxativo:

- Reacionário não dá; eu desisto!
Descemos já fundo demais;
Proponho que se instaure a utopia
e que assinemos o tratado de paz.

E Paulista, que tampouco ignorava os encantos de um piercing bem colocado, entendeu a deixa e emendou, impávido:

- A paz é bom fruto da luta;
está aceita a proposição.
Agradeço à atenta platéia
e viva a revolução!

Estava, pois, encerrado o duelo; empate, aceito sem ressalvas por ambos os adversários. Um dos poucos circunstantes até fez menção de bater palmas, mas percebeu o despropósito e deteve-se a tempo.
A essa altura, a doce morena acabara de contornar a mesa de sinuca, vazia àquela hora da tarde, e dirigia-se sem hesitação para a porta do D.A., provavelmente em busca de quem pudesse ajudá-la a confeccionar a carteirinha escolar ou algo do tipo. O fato de ter tentado insistentemente abrir a porta trancada da saleta, ignorando o fato óbvio de que ninguém estaria por lá antes do início da noite, evidenciava: era bixo, recém-chegada e necessitando da ajuda de figuras mais experientes para entender as incoerentes regras da Fabico. Pobre ovelhinha, cercada por lobos maus; os comedores de criancinhas logo iriam atacar.
Limberto ergueu-se da poltrona cheia de pulgas, dirigindo-se primeiramente ao barbudo parado ao lado da geladeira vermelha desativada, e pronunciou entre dentes as seguintes palavras:
- Companheiro, peço-te uma trégua momentânea... Deixa eu tomar a dianteira, e hei de ser generoso da próxima vez que sentarmos juntos no Bar da Tia Vilma.
Paulista não pôde evitar um risinho de mofa: ouvir “companheiro” dos lábios de Limberto, e em tal conjuntura, era sem dúvida engraçado. Mas os trotskistas podem ser magnânimos; e, tão logo parou de rir, retorquiu:
- Muito bem,Limberto, assim seja. Mas saiba que meia dúzia de cervejas não hão de me comprar! Pode ir à carga, mas vou estar na volta; e tão logo fique claro que a mocinha não se agradou de ti, abrirás caminho e ficarás quietinho no teu canto. Estamos combinados?
- De acordo, camarada. Talvez a ti eu salvasse do paredão – e virando as costas para Paulista, dirigiu-se até a bela criaturinha, que entre risinhos e charmes revelou chamar-se Rafaela. Paulista, como anunciado, ficou por volta, tirando melodias dissonantes do violão de cinco cordas, e de quando em quando lançando alguma frase espirituosa de modo a se manter mais ou menos parte da conversa.Do manjado papo estilo “veterano-explica-as-regras-para-bixo-perdida”, o diálogo evoluiu para questões mais pessoais, resvalando na música e por fim fincando os pés no fascinante e perigoso mundo da política. Foi quando Limberto sentiu-se enfim em casa e, ainda que cauteloso à princípio, começou a mover-se mais decidido no sentido de impressionar a encantadora morena que tão cheia de interesse ouvira suas considerações até então.
- Eu acho que está na hora dos estudantes universitários levantarem novas bandeiras...
- Pois é, né, sacudir essa acomodação...
- Se a gente não se mexer, quem vai fazer isso por nós?...
A coisa ia muito bem até Lula entrar na conversa. À primeira menção do nome de nosso presidente, Paulista já preparou-se para levantar e sair do Dacom. Afinal, havia prometido trégua ao estalinista sem-vergonha, e não desonraria seus princípios faltando com a palavra. Desonestidade, no fim das contas, era especialidade de outras correntes. Seja como for, ainda estava sentadinho com o violão no colo quando Limberto proferiu, resoluto:
- Pois eu acho que o Lula está enganando os seus eleitores! Já está mais do que na hora de tomar uma atitude, mexer no que está podre, radicalizar!...
- É isso mesmo! – disse Rafaela, empolgada. – O presidente está muito certinho, tem que ir mais fundo nos problemas do país!...
E, após uma pausa que só realçou o charme daquela mocinha, completou:
- Afinal, não adianta negar, quem dá as cartas mesmo é o FMI! A globalização está aí, se não houver livre fluxo de capitais e a gente não se adequar aos interesses das grandes potências, o que será de nós? Se o Lula mudou mesmo, está na hora de provar!...
Um silêncio pesado, opressor, volumoso como o ar parado do verão portoalegrense caiu sobre o Dacom, parecendo até tomar conta de toda a Fabico e ir se alastrando pelas demais unidades do Campus Saúde. O rádio engasgou, a sinuca parou, até a fumaça dos cigarros cessou suas evoluções e pairou imóvel no ar. Paulista estava entre abismado e comicamente admirado; quem diria, uma liberal, em plena Universidade pública, sendo trovada por um autoritário filho de um Gulag... Pois é, o mundo era mesmo imprevisível...
Quanto a Limberto, era a própria imagem do estupor; nem mesmo a ressurreição de Cristo provocaria nele tamanho choque. Com os olhos arregalados, fitava atônito o rosto harmonioso da linda morena, que parecia ignorar a terrível gravidade do que acabara de dizer e sustentava um semi-sorriso simpático nos lábios enquanto aguardava uma resposta. As mãos de LImberto tremiam; uma solitária gota de suor escorreu como um raio por sua testa. Naquele momento, Paulista começou a sentir o perigo no ar, e até mesmo temeu que seu camarada estalinista cumprisse a velha ameaça e, puxando de banda o facão, degolasse aquela doce e bela marionete do imperialismo neomercantilista. Seria mesmo uma tragédia sujar o Dacom com aquele sangue ruim.
Mas, sejamos justos, ninguém presente àquele cenário poderia prever o que ocorreu a seguir. Pois, depois de um silêncio que durou vinte semanas e meia, Limberto falou; e que Karl Marx o perdoe, pois suas palavras, emolduradas por um sorriso conformista típico de quem fez sua escolha, foram:
- É verdade! Que se dane o socialismo de meia tigela, queremos resultados! Está na hora de fazer a reforma acontecer, entrar no jogo e salvar o país!...
Os presentes só se deram conta que Paulista tinha entrado em estado de choque quando o violão caiu, rachando perto do braço e estourando mais uma corda. Somente dois copos de café foram capazes de trazer o cidadão de volta a si; mas ele nunca mais seria o mesmo. Claro que, naquele momento, Paulista não tinha como saber que, sete anos depois, Limberto e a moreninha se uniriam pelos sagrados laços do matrimônio católico opressor, e que eventualmente o outrora estalinista tornaria-se militante ativo do PL; de fato, ele não poderia ter ciência de tais fatos. O que houve é que, naquele momento, Paulista soube que o socialismo estava morto, que o capitalismo era mais forte e que o mundo seguiria de modo inexorável rumo ao colapso total. Era a vitória final do pragmatismo, do capital especulativo, do livre mercado e da infidelidade aos ideais. A verdade era uma só: com aquelas poucas palavras, Limberto acabara de criar um ateu.

Igor N. Vieira e Paulo Seben - 2003

Monday, January 09, 2006

SOBRE O ESPAÇO DE LAZER DO DACOM

Algo precisa ser feito. Urgentemente.

Caso vocês não saibam, a Fabico está em obras. Sim, o imponderável se manifesta e o que todos julgariam impossível está acontecendo: a Fabico (sim, a Fabico) está em obras. Na verdade, o trabalho pesado mesmo ainda não começou - estão no estágio de tirarem a gráfica do segundo andar, o que por si só já é um acontecimento quase que inconcebível. Passei lá na última quinta feira para ver uns esquemas relativos ao estúdio de TV, e deparei-me com um caminhão guindaste, retirando pela janela aberta do segundo andar uma enorme máquina que minha imaginação mal consegue conceber para o que serviria. No saguão, um monte de gente correndo de lá para cá, carregando equipamentos, fardos de papel e por aí vai. E nem o elevador pude usar para subir, posto que o mesmo estava mobilizado para a mudança. Incrível. Em fevereiro, o estúdio deve descer até o térreo, onde ficará temporariamente (?) até a reforma da sala oficial acabar (?). Ou seja, muitas coisas acontecendo, em ritmo não menos do que alucinante. Eu fiquei pasmo, de verdade.

Mas é claro que não é isso que me leva a conclamar os 3 ou 4 leitores desse blog à ação. O que de fato me aflige é o destino das paredes do Dacom. Aos que desconhecem o fato, informo que todo o térreo da Fabico deverá receber uma mão de tinta durante as férias, e é muitíssimo provável que a sala de recreação do Dacom não se escape da pintura. Ou seja, lembra aquele monte de pichações sem sentido, os desenhos tão caprichados, as piadas e enigmas e sofismas que cobrem as paredes do dacom? Pois é, tudo isso vai sumir. Alguns consideram isso um tremendo absurdo, outros acham que tava na hora mesmo, outros procuram ser positivos e encarar tudo como o começo de uma nova etapa. Na verdade, isso pouco importa: de qualquer maneira, é o fim de uma era, com tudo o que isso implica.

Pois é, gurizada, e a gente vai fazer o que a respeito, hein? Vejam bem, não que eu ache viável uma atitude de insurreição do tipo "vamos nos dar as mãos", a galera acampando na frente do Dacom para os pintores não entrarem e tal. Isso, além de ridículo, estaria fora do contexto. Eu queria, isso sim, que a galera se mexesse no sentido de preservar essa história, essa coisa toda na qual a gente talvez tenha colaborado pouco mas que é parte da nossa história também. Sinceramente, me entristece ver o que, bem ou mal, é um dos símbolos da convivência fabicana sumindo desse jeito, no entre-semestres, com a maioria dos fabicanos póuco se lixando para o fato. Que tal umas fotos do lugar, antes que tudo vire paredes brancas ou coisa pior? Isso seria fantástico. Qualquer coisa, que ajudasse a manter viva de alguma maneira a memória do que foi aquele lugar, antes que a nova etapa comece substituindo-o por sabe lá Deus o quê.

Na quinta, quando eu desci do estúdio para ir embora, dei uma passadinha no dacom e fiquei olhando para as paredes. Não fiquei triste, não, acreditem-me: se eu tivesse que votar, era pela pintura mesmo. Mas deu um quê de melancolia, e decidi fazer uma coisa que há tempos eu me propunha e nunca rolava: peguei meu bloco, uma caneta e transcrevi as frases do Cantinho da Rosa Nívea. Sim, meus amigos – agora podem cobrir o cantinho com tanta tinta quanto acharem necessário, porque a memória existe, e logo as frases voltarão para lá, para o lugar que delas é de direito! É um troço que eu vi nascer (hahahahaha, tô ficando velho mesmo), e que eu acho legal que se perserve. E o resumo da ópera é esse, gurizada: sem choro que a vida se vive para a frente, mas olhar para trás é legal para saber de onde se veio e ficar mais claro para onde se vai.

Para fechar, algumas das frases antológicas da grande Rosa Nívea, tiradas do nosso querido Cantinho. O resto vocês lêem quando março chegar. Hasta!

"A imprensa surgiu com o descobrimento do mimeógrafo".
"A diferença entre o jornalismo e a medicina é muito grande... Para usar um bisturi a laser, tem que saber usar um bisturi a laser".
"Não dá para deixar o filé mignon para a pós e os rastafári para a graduação".
"O jornalista tem que pesquisar, checar e rechecar informações importantes, como por exemplo 'a capital da escócia é tal'".
"São Gabriel? Ah, não fica nas missões?"
"O jornalismo é um dinossauro: porque ele não está estático, ele está se movendo".
"Porque daqui a pouco a gente não sabe mais se é milho com cabeça de feijão, se é só feijão, se é só milho... Ou pode ser um arroz, ou até mesmo uma abóbora. Tudo transgênico".
"O ecstasy... Ah, o ecstasy. O ecstasy acabou com a seresta. É o fim do trovadorismo".

Wednesday, December 28, 2005

RESSURREIÇÃO (e ainda falta muito para a Páscoa)

Bom, deixando umas coisas claras para começo de conversa:
1) Sim, eu sei que a saga de Gramado parou no meio. Uma pena, mesmo. Ponham a culpa no semestre desgraçado cheio de trabalhos puxados e cadeiras chatas que eu tive, na minha falta de tempo, no clima, nas marés, ou até em mim mesmo se preferirem. Ela possivelmente será concluída, na medida do possível, ou talvez não. Pelo menos o relato do último (e absurdamente surreal) dia eu garanto, para alegria dos que o viveram e foram basicamente os que se deleitaram com a saga até o momento. Sai em breve, então sugiro aos interessados que fiquem ligados.
2) Os princípios que nortearam a criação desse blog seguem intactos. Vou escrever sempre que achar conveniente, o que me der na telha, e se isso demorar é uma pena. Textos longos, que sou um justiceiro, e isso aqui é quase um anti-blog. E arílson.
3) Acreditem ou não, já estava sentindo falta disso aqui =)

Certo, então? Assim sendo, deixo uma historinha para ilustrar essa ressurreição... Tem até um quê religioso nela.

Assim. Cerca de uma da tarde, eu morrendo de fome e de dor de cabeça, vou me dirigindo para a Azenha para pegar um busão e retornar ao aconchego do lar depois de mais uma jornada cansativa de Fabico. Estou naquela faixa de pedestres da Santana, olho para os lados e vejo que nenhum carro se aproxima perigosamente de nenhum dos lados da via pública. Tem uma Kombi branca vindo, lá longe onde a vista alcança, mas nem que eu parasse na faixa de pedestres para fazer um lanche e assistir o Jornal Hoje dava tempo para o tal veículo me alcançar. Tá, vou lá então. Estou ali, absorto no atravessar a faixa, quando uma buzina incessante e antipática toma conta do ar. Olho para o lado e é a tal Kombi, um pouquinho mais perto, desesperada para que eu saia da sua frente, buzinando como se os cerca de oitenta metros que nos separavam fossem nada e o choque fosse iminente. Que merda, pensei, esses neuróticos do trânsito são foda. Dou uma aceleradinha no passo, chego no outro lado e já vou molhando a garganta e fazendo aquecimento no dedo médio para o xingamento. Ah, palhaço, vai buzinar desse jeito para o teu pai! Quando enfim focalizo a Kombi e vejo a pessoa que está no volante, sou completamente desarmado, e acabo apenas contemplando a cena absurda com o ar de quem acabou de ver um cachorro dançar tango.

Uma freira. Sim, amigos (as). UMA FREIRA. Uma freira, de hábito e tudo, no volante daquela Kombi branca, buzinando e correndo no trânsito como se estivesse fugindo do Juízo Final. E ela estava braba, acreditem – se eu tivesse feito menção de protestar, era bem capaz dela girar o volante e tocar a caranga para cima de mim. Foi ao ver aquela mulher consagrada a Deus em tal estado de stress que eu percebi que nosso trânsito é nefasto mesmo, e leva mesmo pessoas acostumadas à penitência e à tolerância a terem arrepios de puro desespero. Depois que o veículo abençoado (?) sumiu rua acima, só me restou fazer um sinal da cruz (ironia é meu nome do meio, mesmo nas situações mais surreais) e voltar para casa dando risada, sem fome, sem dor de cabeça, sem nada. Afinal, não é todo dia que se é quase atropelado por uma Kombi pilotada por uma freira, não é verdade?